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02-10-2017 Vida e morte do P. José Maria Cabral Ferreira sj


O padre José Maria Cabral Ferreira sj morreu no dia 14 de setembro.

Este texto é uma homenagem do padre Vasco Pinto de Magalhães sj



Falar do padre Zé Maria, na hora da sua morte?… Sinto um turbilhão de imagens e de conversas que se atropelam no meu espírito. Uma amizade espontânea e construída, sobretudo nestes últimos 30 anos, dezoito deles a viver na mesma comunidade jesuíta do Porto, não se resume facilmente. Uma das suas características era a de fazer e deixar amigos por todo o lado. Como se nada fosse! 
 
Posso partilhar algumas coisas que fizemos juntos e foram marcantes, recorrendo ao meu “Álbum de memórias”. Abro à sorte, aqui, por exemplo,estamos na Sicília. Percorremo-la, nesse verão, de uma ponta à outra, contemplativamente… Ele sempre se distraiu com as horas! Mas sempre havia onde ficar, pois em todo o lado (e isto também no resto da Itália) encontrava um casal amigo, um arquiteto seu conhecido, um padre de paróquia aonde, antes, teria vindo ajudar na Páscoa, etc. Agora, aqui,esta fotoé no Centro Pedro Arrupe (Istitutodiformazione politica), que ele tanto queria visitar em Palermo:conversando sobre os grandes desafios impostos pela Máfia e as questões sociais graves da região. Mas, no dia seguinte, sem horas marcadas, em Agrigento no Vale dos Templos, mergulhámos numgrande silêncio só interrompido quando, de repente, ele começava a recitar algum texto dos clássicos ou uma poesia que parecia responder a alguma observação minha sobre a paz ou a estética do lugar, mas ele ia muito mais além.
 
Torno a abrir o Álbum e, agora, estamos em Exercícios Espirituais, nada mais, nada menos do que no grande Mosteiro cisterciense de Santa Maria la Real de Oseira. Oito dias, bem inacianos, dando pontos de meditação um ao outro, e participandonas horas canónicas cantadas no côro dos monges. Largos passeios silenciosos; uma paragem debaixo de um grande castanheiro e lá vinha a sua reflexão a partir das saborosas bolachas que os monges fabricavam e nos ofereciam e dali nos levava o pensamento até S. Bento e à construção da Europa (em Ora et Labora), e daísaltava para o seu Douro vinhateiro ou para as pequenas aldeias de Trás-os-Montes onde tinha trabalhado e deixado grande parte da sua alma social. 
 
O padre Zé Maria não era um sociólogo de cátedra.As suas aulas, quer na Faculdade de Arquitetura quer no Instituto de Serviço Social do Porto, marcaram fortemente várias gerações. Mas onde se sentia mesmo bem era no trabalho de campo, ou melhor, comunicando comas “gentes” de todo o tipo e com todo o afecto. O tempo e cuidado que dedicava à JARC,aos grupos que vinham das suas terras reunir com ele ao Porto, a alegria com que participava nas celebrações da Comunidade da Serra do Pilar e a admiração pelos seus amigos “padres operários”, a presença no Banco Alimentar do Porto, a importância que dava aos encontros e às pessoas ligadas ao Metanoia, ao CNIS (Confederação das Instituições de solidariedade) de que foi um dos fundadores e, como ele próprio dizia,a sua “quase-obsessão” pelo “Bairro Português de Malaca” onde trabalhou, viveu e escreveu, mostram bem a sua inquietação pela justiça e pelos “esquecidos”, juntamentecom seu sentido crítico e ao mesmo tempo apaixonado, fazem o seu retrato. 
Era um intelectual afectivo e um afectivo intelectual, para fascínio de uns e irritação de outros. De facto não sabia falar, numa conferência, numa homilia ou cara a cara sem trespassar e/ou comentar o seu pensamento lúcido pela poesia (por vezes em francês ou em latim…) que o faziam perder-se num voo lírico que já nos escapava. Um distraído, ou um híper concentrado no seu modo de sentir o Reino de Deus?Eu diria: uma forma própria de contemplativo na acção, não cabendo no convencional.
 
Voltando ao meu Álbum interior, abro agora na página de férias na Praia do Baleal. O pe.Zé Maria sonhava com esses dias de descanso, sem horários rígidos, em pequena comunidade com jesuítas mais novos com quem se entretinha a conhecer e a trocar opiniões. Aqueles dias faziam parte do programa anual. E o prato forte do dia era caminhar aqueles cinco quilómetros pela areia até Peniche. Aí saíamos.E o ritual era: um jornal, um café e uma visita a uma daquelas Igrejas de azulejos tão típicas da zona. Ele conhecia-as de cor, mas a conversa sempre chamava a atenção para algo de novo. Não queria voltar logo e a sua intenção “escondida” era avançar mais uns quilómetros até à Senhora dos Remédios, junto ao cabo Carvoeiro. Aí se perdia…até que eu dissesse: são horas, temos de completar aconversa e as nossas mútuas “confissões” pela praia fora, antes da próxima maré cheia.
 
Há outros dois capítulos do Álbum que, neste retrato, não posso esquecer: o futebol e a política.O Zé sempre gostou de jogar à bola e tinha muita jeiteira. Ainda tentou o rugby quando passou pela Agronomia, sem ir muito longe. Mas o que agora interessa é o modo como entendia e definia (e até ligava) essas duas actividades sociais, envolventes do povo, identitárias, quase formas de religiosidade. E ele expressamente falou sobre isso.
 
Em 1996 deu uma grande entrevista a António Baldaia (para “a Página da educação”) publicada com o título “Um homem do Porto que viveu muito Douro e algum Oriente”. Vamos “ouvi-lo”:
Uma das perguntas era: considera-se mais tripeiro ou mais portista? 
- “…É um tema com muito mais importância do que as pessoas lhe atribuem, ou dizem que atribuem. No fundo, creio que, às vezes se disfarça a importância disso. Estou a referir-me ao futebol: o futebol e a cidade; o futebol e a identificação local e regional; o futebol como fenómeno religioso, como creio que funciona para muita gente, como substituto funcional dasreligiões – o futebol tem uma liturgia, tem uma simbologia, tem os seus rituais! (…) A capacidade de afirmação no campo desportivo foi – e creio que ainda é muito – um suporte de identificação pessoal e colectiva. Para a minha geração, o FC Porto foi uma bandeira de identificação com a região, face a um poder bastante central. O que não quer dizer, obviamente, que as pessoas nortenhas devam ser todas simpatizantes do FCP. Mas creio que, apesar de tudo, este tipo de identificação serve, muitas vezes, de suporte face a outras entidades mais poderosas – as pessoas desta geração não fazem ideia do que era a nossa pertinácia em aguentarmos a troça constante e sucessiva de anos a fio a perder. Eu bem sei o que isso é.”
 
Não foi, certamente, por razões de conveniência ou interesse pessoal que dedicou tantos anos da sua vida ao trabalho na Comissão de Coordenação da região Norte. Razões profundas de um cristianismo incarnado e prático, praticante, através de uma responsabilidade autárquica quer para coma própria cidade (ensinava urbanismo em Arquitetura) quer no compromisso com a regiões pobres e mais distantes do centro.
Voltando à entrevista, perguntaram-lhe também: olhando para a sociedadeactual, acha que há uma “geração rasca”. Respondeu: - “Não há, mas hárasquices. E problemas muito sérios a que é preciso dizer não. Por exemplo, a questão da autoridade – não se vive sem autoridade; e a questão do respeito pelas instituições – as instituições são a liberdade, são democracia. O homem não cabe nas instituições, mas não vive sem elas. Portanto, o que é preciso é viver nelas e depois inventar outras – isso é que demora e é difícil, mas as instituições são a linguagem, são as possibilidades de entendimento. Por outro lado, a liberdade não é viver fora das regras, é ser criativo dentro delas – isso chama-se Arte.”
Os grandes problemas são, então, a crise de autoridade - e o desrespeito pelas instituições?
 – “Acho que sim. Os miúdos vivem sem autoridade (os pais têm medo) e depois vão por aí fora e chocam com os outros, porque (para eles) liberdade é não ter autoridade… Mas a autoridade é a liberdade partilhada e consensualizada – na partilha dessa aceitação há a libertação, e a isso chama-se Democracia.”
E noutro passo da entrevista comentou: “A juventude não é exactamente como as colheitas de vinho; é uma realidade perene, mas é verdade que há situações muito difíceis. Na minha geração, nascíamos muito mais caracterizados, muito mais ligados a formas culturais e sub-culturais, e muitas vezes as mudanças sociais eram entre dois estádios. Hoje, a grande mudança é para uma situação de mudança; ou seja, a estabilidade tem de ser a estabilidade na mudança. Quer dizer, é ser capaz de viver a mudar, e isto é difícil – exige realmente muita mudança, pondo em risco a nossa estabilidade, ao mesmo tempo que há o risco de nos perdermos um bocado nisto.”
“Acho que os jovens vivem isto e muitas outras coisas melhor do que nós; mas não sei dizer isto – não gosto de dizer melhor ou pior, porque acho que os Homens são sagrados: procuram e querem desesperadamente o Bem, e não o Mal; provavelmente, procuram o Bem através de coisas que lhes fazem mal… (parece-me que é assim).”
“Agora, é verdade que as construções sociais não facilitam encontrar a Harmonia e o Bem, construídos coletivamente. E os jovens não terão a sensação da identidade perdida, mas, provavelmente, muitas vezes não saberão o que é ter uma identidade relativamente definida (parece-me isto, mas não tenho a certeza que seja assim). E esta situação é muito consentânea com a desvalorização de todas as coisas – neste sentido, da fragilidade e do efémero de todas as coisas.”
Era bom e desafiante ouvi-lo falar com todo o cuidado para não julgar e incluir! E continuou:
“A realidade material de hoje é descartável. As coisas não são feitas para durar. Antigamente comprava-se um casaco porque era bom, e durava muito tempo. Hoje, bom ou mau, ao fim de certo tempo já não é bom porque o temos há muito tempo. Esta mentalidade pode aproximar-se um bocado de tudo, inclusive do convívio e do uso das pessoas.”
“No fundo, há uma certa perda de fé – e aqui não quero dizer fé religiosa; a fé é a lei humana por essência! Num mundo tão rápido, que acelerou tanto, a gente demora muito pouco em todas as coisas, sendo difícil dar o valor devido às pessoas e a todas as coisas.”
 
O padre José Maria escolhia muito bem as suas leituras (e combinava-as) da arte à teologia, das questões sociais à poesia. As amizades aconteciam-lhe com toda a naturalidade com a sua especial capacidade de se fazer próximo. Cuidava muito a escrita à mão, quase desenhada, com os amigos distantes. Nos grupos e encontros em que participava, com frequência, deixava as pessoas perplexas, pois, sendo ele um defensor das instituições e organizações, intervinha saltando fora das regras e das convenções, levando a pensar que se teria despistado… Ou era apenas a tal criatividade que tanto buscava?
Vou deixar de lado as memórias de infância e as relações familiares deste trineto de Dona Antónia Ferreira sempre pronto a voltar ao Douro, a revisitar a Quinta do Monsul onde, em cada esquina, recordava com emoção os ditos e os feitos de seu pai, as conversas e as caminhadas, os piqueniques…
 
Por fim, abro mais uma vez o meu Álbum, escolhendo uma página dos últimos anos. Quando já começavam a ser visíveis alguns sinais de debilidade propus-lhe aproveitar o tempo, que então lhe parecia sobrar, fazendo a tradução do francês de dois ensaios do Pe. Pierre Teilhard de Chardin, um “Sobre a Felicidade” e outro “Sobre o Amor”, duas peças que considero fundamentais e que não havia ainda editadas em português. O Pe. Zé Maria animou-se, pegou no seu francês, culto eactualizado e, apesar de alguns “apesares” próprios do tempo, levou a tarefa, nada fácil, ao fim com grande rigor, qualidade e alegria. As ed. Tenacitas publicaram esse livro que faltava. 
 
Fecho aqui o nosso Álbum, porque há muito a dizer e a agradecer. Um homem não se resume numa narrativa, nem cabe numa definição; e a amizade oferece uma objectividade própria.
 

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