Notícias  > Notícias


17-01-2017 Silêncio


Saíram da sala de cinema sem trocar palavra. Regressaram a casa sem que o rádio fosse ligado. À mesa foi difícil conversar. Tinham assistido ao filme Silêncio, de Martin Scorsese, e o título cumpriu-se nas horas que se seguiram. Foi mais ou menos assim, que um dos meus companheiros jesuítas comentou o que se passou com ele nas horas que se seguiram ao visionamento da mais recente obra de Scorsese.
 
Na verdade, as conversas com quem já teve a oportunidade de ver filme têm invariavelmente sido antecedidas por esta hesitação: o que pensar, que sentimento é este que o filme me deixa, como falar desta perplexidade que nos enche de temor.
 
Para começar a conversa, é preciso dar um passo atrás. Porque a tentação seria recorrer às categorias de herói e vilão, bom ou mau. Enfim, etiquetar as personagens. Não vamos por aí. Mas é fácil que o olhar se prenda aos bravos camponeses japoneses convertidos ao cristianismo. Despojada de todo o artifício a integridade da sua fé faz-nos bem. Vão até ao fim. Preferem o martírio a negar a Deus.
 
Do outro lado estaria o mau da fita. Aquele que apostatou. O padre Sebastião Rodrigues que partira para um Japão assolado pelas perseguições aos cristãos, em busca do padre Cristóvão Ferreira, seu antigo professor, figura inspiradora que agora diziam, sem que Sebastião acreditasse, que tinha negado a fé. Sebastião tem gravada na imaginação a glória do martírio, vê a imagem de Cristo e sente-se chamado à grandeza suprema de dar a vida. Mas à medida que a sombra se adensa, cresce a dúvida. Sente-se o silêncio. Por onde passa agora a vontade de Deus? Posso deixar sofrer os meus irmãos, recusar-lhes a compaixão? Terei de renunciar à honra do martírio? Terei de ser tido como louco desprezível pelos meus companheiros jesuítas e pela Igreja?
 
Perguntas, cheias de solidão, que nos levam ao lado difícil da fé, ao não óbvio. Pretender que se morre em nome de Cristo, esquecendo os irmãos, pode ser ato voluntarista, desejoso de glória. Talvez não a glória do mundo, mas a dos livros de Santos ou a de um céu, que em última análise martírio algum pode comprar porque é dom gratuito de Deus.
 
Scorsese retoma de um modo profundo as questões do livro de Shusako Endo, ajuda-nos a compreender a complexidade da fé e das escolhas humanas, confronta-nos com a exigência da fidelidade. Não nos dá respostas. Mas ficamos a pensar se é possível ouvir Deus sem escutar o grito dos que sofrem, se a melhor imagem de Deus não será o rosto do meu irmão.
 
A obra de Martin Scorsese tem o enorme mérito de recusar a simplificação. Obriga-nos a pensar a realidade da fidelidade muito para além do juízo apressado e precipitado. Num mundo onde excessivas vezes a realidade é classificada de um modo acelerado, sem que se procure compreender a sua espessura e profundidade, este é um enorme desafio. A verdade e o sentido apreendem-se como um caminho, não se agarram como certezas que nos pertencem e que podemos manipular de acordo que a nossa perceção de quem é fiel ou infiel. Isso seria ocupar o lugar de Deus.
 
O realizador norte-americano tem ainda o mérito de nos recordar que fé é sempre uma pergunta pelo outro. "Onde está o teu irmão?" (Gen 4, 9) é uma das primeiras perguntas que Deus dirige ao ser humano na Bíblia. É uma pergunta para sempre.
 
Depois do Silêncio fica o silêncio e um convite: acolher a complexidade do mundo, acolher o rosto do outro.


José Maria Brito, SJ

  Anterior