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02-05-2017 O Papa Francisco


O Papa Francisco está prestes a chegar a Portugal. Ocasião que podemos aproveitar para questionar: Quais as palavras e gestos mais marcantes do seu pontificado? Quais as suas prioridades no governo da Igreja? Haverá alguma característica particularmente jesuítica em Francisco?
Muitas e diversas serão as respostas para estas questões. Variam consoante as sensibilidades e experiências de cada um, e, certamente, consoante a disponibilidade de cada coração para acolher a reforma que Francisco vai despertando na Igreja. Não obstante esta subjetividade, arriscamos apontar três áreas onde a intervenção do Papa parece ser mais incisiva e, também por isso, mais exigente para cada católico e para a Igreja: a prática do discernimento, a justiça social e a família.
"Podemos olhar para toda a missão do Papa Francisco a partir da prática do discernimento", afirma o Padre José Frazão Correia. Num vídeo gravado para a página dos Jesuítas em Portugal, o provincial da Companhia de Jesus em Portugal sublinha o esforço que Francisco tem feito para "trazer a prática do discernimento para a vida da Igreja", de modo a que esta "se edifique e construa a partir daí". O jesuíta recorda que "o discernimento está no coração dos exercícios espirituais", método de oração proposto por Santo Inácio de Loiola, sendo por isso uma "exercitação" fundamental que perpassa a espiritualidade inaciana.

DISCERNIMENTO
"O discernimento procura, deseja, encontrar a vontade de Deus para o momento presente de uma determinada vida, pessoa, circunstância e realidade. O que o Senhor quer de nós neste momento? De que modo edificaremos a Igreja?", explica, acrescentando que esta "não é uma procura feita a partir de um preconceito, de uma solução já feita ou do que seria mais comum e evidente, mas a partir do contacto com a realidade, com o Evangelho e os movimentos do espírito". 
José Frazão Correia considera ainda que esta "vontade de acertar com o desejo do Senhor" está muito presente na forma como o Papa conduz a Igreja, e "exige uma inteligência atenta à realidade, um coração aberto, disponível, humildade". Um dos exemplos que aponta desta vontade do Papa de por a Igreja a discernir sobre o caminho a seguir foi a realização do Sínodo da Família, um trabalho que decorreu "num espírito de grande liberdade" e sempre confiante de que o "Espírito se manifesta na palavra que trocamos entre nós, mesmo quando ela é diferente". Um caminho exigente, reconhece, mas que conduz a uma "Igreja mais vital, dinâmica, capaz de estar em contacto com a realidade, e capaz de assumir uma ousadia profética".
 
FAMÍLIA
A Família é outra área essencial entre as preocupações apostólicas do papa Francisco, considera o padre Miguel Almeida.  "O Papa sonha com uma Igreja que seja uma grande família de famílias em que todos têm lugar à mesma mesa. Uma Igreja que seja mãe de uma grande família, que acolhe todos em sua casa mas se preocupa com cada um, como cada um é". 
Uma mãe é uma mãe, preocupa-se em educar bem os seus filhos, impõe regras, é exigente, corrige e até pode castigar. Mas não dorme enquanto um filho está fora, entristece-se quando um dos filhos envereda por um caminho que não é o do bem. Esta é a atitude constante do Papa, ir ao encontro dos que estão na fronteira e até para lá da fronteira. No âmbito familiar põe-se a mesma questão: ir ao encontro das famílias que, porventura, podem ainda não viver o ideal da doutrina da igreja e do evangelho, mas estão a caminho. Nenhuma família pode dizer que é a família perfeita ou acabado, o matrimónio é uma realidade que se constrói todos os dias, a graça do matrimónio é para isso, para construir e reconstruir todos os dias.
O jesuíta sublinha que esta família será o que os seus membros fizerem dela. E considera que esta atitude de "querer incluir toda a gente e de ninguém se sentir excluído, longe de ser uma atitude laxista e paternalista, é, pelo contrário, uma atitude de grande exigência". Miguel Almeida sj acrescenta: "é muito mais difícil abrir as portas e acolher os que são diferentes do que viver na segurança dos que são iguais." 
 
JUSTIÇA SOCIAL
Abrir as portas e sair poderia ser outra máxima do Papa Francisco, que desde o início apontou o rumo do seu pontificado: uma Igreja em saída, capaz de ir ao encontro dos que estão nas fronteiras mas também para lá das fronteiras. E os mais pobres e frágeis ocupam um lugar central nesta diretiva de Francisco, que escolheu este nome inspirado em São Francisco de Assis. "A dimensão social da mensagem de fé é uma das marcas principais deste pontificado", aponta o Padre Filipe Martins, coordenador do Apostolado Social dos Jesuítas em Portugal. 
O Jesuíta sublinha que o cuidado com os mais frágeis é "claríssimo no Evangelho", pelo que "não pode haver leituras metafóricas ou simbólicas que nos façam esquecer esta dimensão". Além disso, acrescenta, "o Papa não só fala nisso como põe em prática". Ou seja, nunca uma palavra de Francisco deixa de ser acompanhada por um gesto que a traduza. Assim aconteceu, por exemplo, na visita a Lesbos, onde chegam milhares de refugiados em busca de uma melhor vida na Europa. "É muito bonito este desejo de ir aos sítios onde há sofrimento e pessoas em situações de fragilidade."

Rita Carvalho
 

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