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07-06-2017 Qualidade de Vida


 

Qualidade de Vida e “tudo a que tenho direito” (*)


- “Tens qualidade de Vida? Que é, para ti, qualidade de vida?” – “Sim, acho que tenho. No ideal é isso… é ter tudo a que tenho direito. E vamos andando. Tenho saúde, uma boa casa com vista, segura… e com garagem. De lá não se vê nem se cheira a lixeira do bairro aqui ao lado. Tenho sorte: herdei umas coisas; viajo quando quero. E nas chatices tenho alguém que trate; mas pago-lhe bem. Não sou inconsciente…sei que não me posso instalar e até já me contaram a história, que Jesus contou, de um tal que teve uma grande colheita; mandou fazer uns celeiros maiores e deitou-se dizendo: minha alma, estás mesmo bem; come bebe e regala-te. E nessa noite uma voz lhe dizia: e se tiveres agora de dar contas a Deus? Bem! Mas eu até já aprendi a afastar essas vozes, meio beatas. E até no Natal dou sempre para a Igreja… e nos anos bons, eles não se podem queixar. Também sei que isso não é tudo, que há refugiados a morrer no Mediterrâneo, mas é masoquismo estar sempre a ver isso, já que a gente não pode fazer nada, e o que não temos é políticos à altura!”
 
Qualidade de vida é “ter”: é coisa que se tenha? Não será antes experiência e fruto de boas relações? Como anda a relação comigo próprio? Equilibrada, verdadeira, sem comparações doentias. E a minha relação com os bens, não só materiais, que me rodeiam: como admiro e respeito a natureza, como lido com a tentação do último grito do digital? Não poluir é só teoria, ou também prática da casa? E o aquecimento global é “história” ou não é, mas não há nada a fazer? Como é a minha relação com os outros e com os outros “outros distantes”? É proximidade, conflito, suspeita, com alguma ideia de disponibilidade? E com os valores e as exigências éticas? E com Deus: há uma relação construtiva, adulta, pacificadora?
 
A verdade é que, (e a experiência o mostra a cada passo), sem atender ao princípio e exigência básica de ter presente o Bem Comum, não pode haver equilíbrio social, nem pessoal, nem justiça… O cuidado com o Bem Comum faz ir para além do “teu” e do “meu” e é uma condição fundamental para que haja alguma ecologia humana. A ecologia é o “tratado”, a ciência e a prática, das relações equilibradas! E são as relações humanizadas, sempre em melhoria, que determinam a qualidade de cada vida, de cada sociedade.
A Qualidade de Vida mede-se pela qualidade das nossas relações.
 
Posso ter muitas coisas boas; ter amigos e até ter tempo para eles, mas se esse “ter” é abusivo, por excesso ou por defeito, traz consigo dependências, prepotências, exclusões, algum indiferentismo que me cega, quanto ao bem comum; e tira a paz às relações de dar e receber. Então o que se vive torna-se numa fonte de injustiças e desequilíbrios ecológicos.
 
As questões ecológicas andam de mãos dadas com as questões sociais. Todo o desequilíbrio ecológico gera problemas sociais. E vice-versa.
O Ambiente não é uma moldura que nos rodeia. São as nossas relações com a natureza (com as coisas e os outros seres vivos) que geram e determinam o ambiente. O ambiente vem da nossa interação com o meio; e a ele, a esse meio, pertencemos.
 
O grito ecológico que hoje ouvimos, os fortes sinais de que é preciso cuidar do sentido (Logos) da casa (eco) comum vai muito para além da preocupação com a natureza, de a tratar e preservar, temendo algum catastrofismo ou seguindo alguma ideologia naturalista e/ou panteísta. É sobretudo o apelo a cuidar de nós (ambiente) da casa (planeta) que habitamos e não existe senão por nós e connosco. O Investimento será, pois, nas boas relações.
 
Como é possível sermos fraternos habitantes deste condomínio-Terra-no-espaço?
A Encíclica LaudatoSi’ aponta duas coisas muito importantes. (1) A mudança de paradigma, isto é, passar da “solução tecnocrática” e economicista para o “caminho de uma justiça humana” que não exclua ninguém. E isto só é possível se houver um valor maior do que nós próprios, como Cristo, que inspire a criação e a nossa acção. Sim, sem alguma transcendência não há imanência. (2) Em segundo lugar, não há caminho sem uma “espiritualidade ecológica”. Ou seja, concretamente, só haverá paz e qualidade de vida, pelo exercício contínuo de sair de nós próprios, transcendendo o egocentrismo consumista, pela prática do pensamento crítico e do desenvolvimento de relações de qualidade humana.
Resumindo: não ao “tudo a que tenho direito de ter”, mas sim, ao “tudo o que tenho o dever de fazer” pela qualidade de vida para todos e cada um.
 
Vasco Pinto de Magalhães sj
 

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